Rafaela Wessel

Eu amava o cheiro da chuva.

agosto 31, 2026 | by rafaelawds@gmail.com

Chuva.

“Eu amo o cheiro da chuva” era a frase que eu mais escutava da minha vó ao longo da minha infância. Tendo, assim, me marcado da maneira mais sublime possível, sendo sempre relembrada pelas pequenas coisas: o cheiro de terra molhada, a brisa fria, o dia mais escuro, os bolinhos de chuva fritando e a sensação das gotas d’água na minha pele. Dessa forma, toda vez que eu notava uma dessas coisas, eu me preparava para receber a chuva.
Ou seja, guarda-chuvas, galochas, capas de chuva, tudo que minha mãe queria que eu usasse para sair de casa nos dias chuvosos era opressivo, não parecia natural para mim não querer sentir aquilo que eu mais amo por completo. Então, se eu fosse obrigada a usar uma dessas coisas, elas iam direto para a lama, enquanto eu rodopiava entre os pingos advindos do céu, com a boca aberta, tentando sentir seu gosto com a minha língua.
Em 2024, quando eu tinha dez anos, ouvi a notícia de que choveria muito na minha cidade. Comecei a perceber minha mãe se agitando, ansiosa, sempre olhando o noticiário, atenta ao anúncio dos lugares mais atingidos pelas fortes chuvas, vendo se atrapalharia o emprego do meu pai, que já devia saber, por ser metereologista. Todavia, em meio a tudo isso, a minha ansiedade era outra, a antecipação vinha de sentir as gotas geladas das nuvens carregadas em minha pele. Logo, contei para a minha mãe que eu estava animada para a temporada de chuvas, o que me rendeu uma bronca e um “você não sabe nada das mudanças climáticas!”.
Só que eu não sabia mesmo. Quando chegou o primeiro dia de chuva, eu fiquei feliz, quis ir correndo para a rua, porém, minha mãe não permitiu, tive que ficar vendo a chuva pesada cair pela janela, tentando adivinhar qual gota escorria mais rápido na vidraça. Diferentemente das outras vezes, a chuva era contínua, não parava nem por uns minutos. Depois, eu não pude ir para a aula nem ver meus amigos. Por fim, os noticiários começaram a falar ainda mais da chuva como um dos vilões do aquecimento global, afirmando que machucaria milhares de pessoas.
Um dia, meu pai tentou ligar para a minha vó, mas ela não atendia. Ele e minha mãe ficaram nervosos, pois ninguém podia sair nessa chuva. Após muitos gritos na cozinha, ele saiu de casa, para procurar a minha vó. Então, perguntei se podia ir junto, queria saber se ela ainda gostava da chuva, porque eu não queria ser única a gostar de algo tão ruim. Todavia ele me ignorou.
Quando ele voltou, estava todo encharcado e gelado, mas o rosto estava quente, com os olhos cheios de lágrimas. Depois desse dia, eu só conseguia dizer: “Eu amava o cheiro da chuva”.

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