Rafaela Wessel

Os Miseráveis — o eco que a narrativa de Victor Hugo produziu.

junho 7, 2025 | by rafaelawds@gmail.com

Cosette

Os Miseráveis  —  Les Misérables no título original —  é um romance social francês publicado no ano de 1862, apesar de ter sido escrito em momentos distintos, com anos de diferença, da vida do autor. Escrita por Victor Hugo, a história se tornou muito popular na época, sendo traduzida para diversas línguas e gerando fama para o autor em sua terra natal e no mundo todo, devido a sua linguagem (de cunho popular na época) e ao tema abordado (moral). A obra descreve a desigualdade social da França, entre 1815 e 1832 (espaço e tempo da história), tratando do período que veio após a queda da monarquia francesa e discorrendo as questões desencadeadas pela Revolução Francesa.

Victor-Marie Hugo nasceu no dia 26 de fevereiro de 1802, em Besançon, na França. Foi o terceiro filho do Conde Joseph Léopold-Sigisbert Hugo, general de Napoleão Bonaparte, com Sophie Trébucher. Durante a infância, passou muito tempo fora da França devido às viagens do pai. Mais tarde, seus pais acabaram se afastando, por causa de suas opiniões divergentes (ela era monarquista, enquanto ele era leal aos governos sucessivos), fazendo com que o jovem Victor saísse de Paris para acompanhar seu pai a Elba, Madri e Nápoles, mas sempre retornando com sua mãe para Paris.

Hugo se formou em Direito, entretanto, voltou seus interesses à produção de textos literários. Fundando, inclusive, uma revista (Conservateur Littéraire). Após a morte de sua mãe, Victor Hugo se casou com Adèle Foucher, sua amiga de infância, com quem teve cinco filhos, porém, ele também teve uma amante, Juliette Drouet, com quem teve um relacionamento duradouro. Quando a filha de Victor, Léopoldine, recém-casada, morreu afogada com o marido, o autor encontrou certo alívio ao escrever Os Miseráveis, todavia, largou a produção do livro por um tempo.

Em 1851, quando o golpe de estado ocorreu e Napoleão III (antes presidente apoiado por Victor Hugo) instituiu o Segundo Império, Victor fez uma tentativa de resistência e fugiu para Bruxelas, onde começou seu exílio, porém logo passou a morar na Inglaterra. O exílio foi de 1851 até 1870, sendo forçado no início, mas se tornando voluntário e por orgulho depois. Nesse período de isolamento da pátria, Hugo produziu muitas obras satirizando o então líder da França (Napoleão III) e o seu golpe; também nesse ínterim, mais especificamente em 1868, que sua esposa, Adèle, morreu.

Depois do autor enjoar de seus escritos políticos, voltou ao lírico e até começou a escrever romances, ocasião em que voltou a trabalhar em Os Miseráveis e enfim terminou a história. Victor Hugo só voltou para a França com o retorno da liberdade e a reconstituição da República em 1871. Tornando-se deputado na Assembleia Nacional no mesmo ano e, em 1876, se elegendo senador.

Em 1883, sua amante, que o acompanhou por 50 anos, Juliette, morreu. Em 22 de maio de 1885, Victor Hugo faleceu em Paris. Em seu testamento constava a quantia de cinquenta mil francos aos pobres e o pedido por “preces de todas as almas”. O escritor foi sepultado em 1º de junho no Panteão, monumento fúnebre dos heróis nacionais. Victor Hugo é considerado um herói nacional e um símbolo vivo do republicanismo na França.

Hugo, com 14 anos, leu os livros de René Chateaubriand, iniciador do Romantismo francês e disse: “Quero ser Chateaubriand ou nada”. O homem não se transformou em nada, pelo contrário, é considerado o escritor mais importante do romantismo francês e um dos maiores poetas do país.

O romantismo foi um movimento pan-europeu, que ocorreu entre o final do século XVIII e a metade do século XIX. Por ter surgido como uma reação ao racionalismo do Iluminismo e às mudanças geradas pela Revolução Industrial, suas características são diversas, entre elas há a oposição ao modelo clássico, o texto em prosa com sequência temporal, a exaltação da nação, da natureza e da pátria, o indivíduo e seus sentimentos como centro da obra e um público consumidor. Dessa forma, observa-se que, na França, essa vanguarda modernista começou depois da Revolução Francesa, no período da Restauração, em que o país passava por um clima sócio-político instável. Tal cenário influenciou a arte da época, a qual valorizou as emoções e liberdade individual, decorrente dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que abalaram as monarquias europeias.

Assim, romances, como Os Miseráveis, contavam a história das democracias, da vontade do povo e do triunfo do indivíduo, não de reis e heróis. O homem comum, as mulheres e as crianças se tornaram o tema central dos romances, tal qual o enredo de Victor Hugo, e o homem não é mais uma figura estoica, inabalável, mas sensível, que chora e que se compadece.

Entre os diversos temas abordados, conforme o leitor acompanha a trajetória do protagonista, Jean Vanjean, é possível identificar, principalmente, uma denúncia em formato de ficção. O autor causa no leitor um desconforto pelas mazelas vivenciadas pelos personagens da narrativa, que se encontram em uma situação miserável, cada um à sua maneira: Fantine é forçada a viver na prostituição, Jean Vanjean é atormentado e definido como um criminoso por todos a sua volta, devido a um pequeno delito cometido por necessidade, Cosette é maltratada durante a primeira infância por um casal de aproveitadores, entre muitos outros exemplos existentes na trama.

Como uma das maiores obras do Romantismo, o enredo de Os Miseráveis traz consigo a preocupação da população do século XIX e o seu zeitgeist (espírito da época). Mesmo assim, ainda é muito relevante para o mundo atual, em que sua leitura provocará uma reflexão sobre a humanidade, a miséria e a injustiça social.

Victor Hugo foi poeta, romancista e dramaturgo, que era a favor da liberdade na composição ficcional, indo contra as teorias greco-latinas de distinção dos gêneros literários, tal versatilidade autoral e posicionamento no mundo das letras podem ser percebidos em sua escrita, inclusive em Os Miseráveis, em que é nítida, em seu enredo, a junção de um romance tradicional de matriz épica, cenas comuns do lirismo romântico, narrativa com acontecimentos ficcionais e históricos (como a Batalha de Waterloo e os Motins de Paris de 1832). Ainda convém lembrar que o livro busca denunciar a realidade francesa no contexto do período europeu de Reconstituição pós-Napoleão (o qual foi iniciado com a derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo e a realização do Congresso de Viena em 1815), indo ao encontro do fato de que Hugo era defensor dos ideais libertários, herdados da Revolução Francesa. Logo, o escritor foi um porta-voz de si mesmo, do povo e dos demais escritores românticos.

Analogamente, ele retrata, entre seus personagens, clérigos, prostitutas, crianças, mendigos, revolucionários, prisioneiros, militares, estudantes e membros da alta sociedade. Destacando a desigualdade social que assolava a França:

Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século — a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância — não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis (Victor Hugo, 1862, p. 37).

A trama gira em torno de Jean Vanjean, um ex-forçado que passou dezenove anos na prisão por ter furtado um pedaço de pão, para que sua irmã e os filhos dela não morressem. Inserido na sociedade novamente, não vê perspectiva, pois todos a sua volta o enxergam como um criminoso, e, quando finalmente alguém o estende a mão, o bispo Myriel, o protagonista leva o único bem precioso do homem de Deus, seus talheres de prata. A polícia o encontra, mas o clérigo não permite que Jean seja preso, dizendo que deu tudo aquilo para Jean e que ele ainda esqueceu uma parte: dois castiçais de prata. O bispo usa sua misericórdia para mostrar para o pobre homem que ele ainda pode se tornar alguém honesto.

A redenção de Valjean começa aí, mas, para isso, ele quer deixar o homem que foi para trás. Começa uma empresa em uma pequena cidade, Montreuil-sur-Mer, e faz fortuna, sob o nome de Pai Madeleine. Ao encontrar uma mulher doente, Fantine, que se tornou prostituta para poder bancar a filha — Cosette — que vive com o maligno e enganador casal Thénardier em outra cidade (Montfermeil), Jean promete, antes de Fantine morrer, que cuidaria de sua filha.

Assim, o protagonista, perseguido pelo Inspetor Javert, o qual quer prendê-lo por não se reportar para a condicional e por fugir da prisão, salva Cosette da família que a maltratava. Ainda é possível encontrar na narrativa personagens como Marius Pontmercy (interesse romântico de Cosette, estudante revolucionário e filho de membros da alta sociedade), o menino Gavroche (trombadinha revolucionário), Éponine (que furta e pede dinheiro na rua desde pequena), Enjolras (que faz parte do grupo revolucionário “Amigos do ABC” com Marius), entre outros.

Dessa forma, Victor Hugo retratou, por meio de um dos maiores romances da história, a injustiça social no cenário parisiense, falando de um povo que ainda sofria as consequências da Revolução Francesa, carregando o espírito revolucionário consigo; porém, o enredo também se aplica à atualidade, provando ser um clássico de fato, um livro atemporal que, às próprias palavras de Victor Hugo, não será inútil enquanto houver pobreza e miséria no mundo.

Abordando temas que demonstram a injustiça e asfixia social, o autor escreveu um romance de protesto, em que, além de narrar, por meio de seus personagens, a realidade miserável dos franceses, ele (uma figura essencial no republicanismo francês) demonstra opiniões políticas e sua visão sobre a influência da Revolução Francesa na construção de uma sociedade melhor, de acordo com a época em que vivia e a sua ocupação social.

O livro, ao narrar a história de Jean Valjean, Fantine, Cosette, Marius e muitos outros miseráveis daquela sociedade, serve de reflexo para os dias atuais. Os personagens são exemplos dados por Victor Hugo para falar, não apenas sobre as classes sociais, mas também sobre a moralidade. É importante ressaltar que o sofrimento humano retratado ultrapassa a esfera econômica, ele envolve muitos dilemas morais e situações angustiantes vividas pelas pessoas; causando, portanto, uma reflexão sobre justiça, fé e amor em todos aqueles que ousam ler Os Miseráveis.

Referências

BARRÈRE, Jean-Bertrand. Victor Hugo. Britanicca, 2025. Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Victor-Hugo>. Acesso em: 26 de abril de 2025.

FRAZÃO, Dilva. Biografia de Victor Hugo. ebiografia, 2024. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/victor_hugo/>. Acesso em: 26 de abril de 2025.

Romantismo na França: contexto histórico, características. Maestrovirtuale.com, 2015. Disponível em: <https://maestrovirtuale.com/romantismo-na-franca-contexto-historico-caracteristicas/>. Acesso em: 26 de abril de 2025.

DIANA, Daniela. Romantismo: Características e Contexto Histórico. Toda Matéria, 2011. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/romantismo-caracteristicas-e-contexto-historico/>. Acesso em: 26 de abril de 2024.

RESUMÃO ROMANTISMO. descomplica, 2023. Disponível em: <https://descomplica.com.br/blog/resumao-romantismo/>. Acesso em: 26 de abril de 2025.

HUGO, Victor. Os Miseráveis. Edição especial. São Paulo: Martin Claret, 1862.

CANTON, James. et al. O Livro da Literatura. 1ª edição. São Paulo: Globo Livros, 2016.

OS MISERÁVEIS — RESUMO DA OBRA E O LEGADO DA REVOLUÇÃO FRANCESA. Brasil Paralelo, 2021. Disponível em: <https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/os-miseraveis >. Acesso em: 27 de abril de 2025.

Sobre o texto

Esse texto foi produzido para um trabalho de história da minha escola. Espero que seja ao menos interessante para alguns, apesar de achar que é relevante para todos.

Comecei a ler Os Miseráveis em 2022 e desde então venho lendo essa narrativa excruciante. Inclusive assisti ao filme, mas não completo, só até a parte que eu tinha lido, para me auxiliar a obter inspiração para esse trabalho escolar.

Sinto que Victor Hugo tinha muito sobre o que falar. Tanto que ainda fala hoje, apesar de já fazer 140 anos desde que parou de falar (devido à sua morte). Suas palavras ecoam no presente porque precisam ser escutadas, espero que você tenha conseguido compreendê-las a partir do meu texto.

P. S.: a parte histórica da narrativa, patriótica francesa, pode ser um pouco maçante. Mas não desista do livro, devore-o por quanto tempo e quantas vezes forem necessárias — existe a versão resumida, mas indico que você leia a completa; a minha edição é a da Martin Claret com 1511 páginas (não se intimide com o tamanho, você consegue).