Rafaela Wessel

O Impulso — o constante desejo de melhorar que move vidas

setembro 1, 2025 | by rafaelawds@gmail.com

capa

O Impulso é um livro escrito por Won-pyung Sohn, uma autora sul-coreana que, além de ser romancista, também é diretora de cinema e roteirista, formada em ciências sociais, filosofia e direção de cinema.

Traduzida e lançada recentemente no Brasil, a obra alcançou mais pessoas pela propaganda fundamentada em outro livro da autora, extremamente conhecido, intitulado Amêndoas. Conquistador de um hype merecido, Amêndoas tem uma alta dose de drama, sentimentos, emoções e sensação de silêncio, o que o torna, de certa forma, diferente de O Impulso.

O estilo de escrita da autora permanece o mesmo, assim como sua capacidade de representar muito bem a essência do ser humano e a configuração da sociedade. Entretanto, dessa vez, pode-se dizer que o buraco é mais embaixo. Isso ocorre porque a dor de Andreas Kim Seonggon, protagonista da narrativa, não é só dele — não é tão específica quando a dor do protagonista de Amêndoas, em que os leitores se debulharam em lágrimas pela empatia despertada com excelência pela autora —, ela é, na verdade, de todo mundo, pois cada um já viveu, está vivendo ou viverá a dor demonstrada pelo personagem.

Andreas Kim Seonggon começa o livro narrando sua tentativa de suicídio. Mesclando entre os pensamentos do protagonista e as palavras do narrador onisciente, a autora consegue prender o leitor que pensa: “Como ele foi parar aí?” ou até “Será que ele vai morrer?”. A tentativa de suicídio de Seonggon (que é a segunda, por sinal) é uma forma de fechar os olhos para tudo que não foi como ele planejou, pois, como o narrador onisciente disse, é muito mais fácil mudar as coisas para pior, já que o esforço exigido para transformar uma vida é o mesmo necessário para alterar o mundo inteiro.

A trama se concentra nas tentativas de Andreas de mudar de vida, desde simples atitudes, como ajeitar a postura, até tentar se reconciliar com aqueles que desistiu de tentar compartilhar a vida. Vemos amores e amigos passados e presentes, antigas empreitadas na busca de ser bem-sucedido e simples estranhos na rua que são capazes de inspirá-lo e mantê-lo tentando. Logo, é sobre isso que o livro se trata: tentar viver da melhor maneira possível.

O sofrimento que domina a vida de Kim Seonggon é o mal do século XXI, a solidão e a pressão de alcançar o sucesso. Nesse momento, caro leitor, você se lembrará de um fato muito importante: a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a “Epidemia da Solidão” como uma questão de saúde global, ou seja, mundialmente, há um crescente número de pessoas se sentindo sozinhas. Entretanto, pesquisas apontam que o povo coreano é um dos povos que mais sofre com esse problema, estimando-se que 4 em cada 10 adultos na Coreia do Sul experienciam solidão severa.

Além disso, a pressão social para ser bem-sucedido é comum e necessária, porém, ela se torna um problema quando deturpada pela sociedade, a ponto de ser idealizada e padronizada, o que está longe de ser, levando em conta que ela é subjetiva e variável conforme a vida de cada indivíduo. Cada indivíduo a busca de uma maneira, porém, acontece muito de as pessoas acharem que a forma como outrem conseguiu, é a mesma pela qual elas conseguirão. Sendo assim, cada dia mais livros de autoajuda alcançam o topo da lista dos livros mais vendidos e, ao invés dos leitores se inspirarem nisso e acharem sua própria maneira de conquistar sucesso, eles seguem o livro como se fosse uma receita de bolo, achando que o que funcionou para alguém vai causar o mesmo resultado para eles. Essa é uma das experiências vivenciadas por Kim Seonggon em O Impulso, mesmo sabendo de cor e salteado e se alimentando dos livros que leu, o grande problema é como aplicar esse conhecimento no cotidiano, seja em relação ao sucesso ou a qualquer meta que busca causar uma melhoria em sua vida.

Observando a jornada dele do início ao fim da narrativa, talvez o grande problema seja a busca pelo sucesso, por algo que cause realização. Talvez, ele concentre o objetivo de sua vida nas coisas erradas, por isso que, quando dá errado, tudo desmorona. Ele não consegue se manter com a família porque não aguenta o peso da sua mente dizer que ele é um fracasso, ele não consegue ter amigos porque espera deles o apoio incondicional e o incentivo constante, além de não conseguir ser feliz porque acha que a vida não vai ter altos e baixos. Todos esses apontamentos feitos sobre o jeito como ele lida com a vida não são só dele, pois também podem ser vistos em todos nós. O que nos leva a pensar, se tudo que fazemos não nos sacia, onde encontramos a completude? A resposta está no lugar mais óbvio e é isso que Andreas aprende: a felicidade e a mudança devem estar e acontecer dentro de nós, independentemente dos limões que a vida nos dá e da limonada que fazemos.

Portanto, esse livro é uma lição valiosa. A extrema humanidade de Kim Seonggon gera nossa identificação com o personagem, as atitudes dele, tanto erradas quanto certas, já foram as nossas muitas vezes e os sentimentos dele que o aprisionam também já foram a cela de muitos. Assim, por meio deste livro, você, leitor, pode arranjar esperança para mudar de vida, inspiração para começar com passos pequenos e incentivo para nunca desistir de buscar a sua melhor versão. Todo passo é um passo no longo caminho da vida, não existe nada na vida que é em vão, quiçá esse é o ensinamento mais precioso do livro. Por isso, leia O Impulso e veja como qualquer arrancada de corrida, impulso para pular e levantar de pés para andar é capaz de mudar o rumo da sua vida.

“Não se iluda achando que o mundo vai mudar. A única coisa que você pode mudar é você.”