Identidade, Inquietação e Esperança na Ressurreição, feat. Santo Agostinho
abril 18, 2025 | by rafaelawds@gmail.com
Agostinho e Inquietações
Para Agostinho de Hipona, canonizado, em 1292, pela Igreja Católica como Santo Agostinho, a vida é cheia de questões que despertam inquietude no ser humano; em seu livro Confissões, ele justifica: “porque nos criaste para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós” (2020, p. 14). Dessa forma, as inquietações que sondam a natureza humana só podem ser suplantadas por Deus, que traz consolo e sentido para a vida.
Agostinho buscou diferentes conhecimentos por meio de livros e aderiu ou se atraiu a pensamentos ou crenças, como o Maniqueísmo (uma filosofia religiosa) e a astrologia. Entretanto, ele conta, na parte autobiográfica de sua obra, que aquilo que não tinha o nome de Cristo nunca preenchia o seu coração ou o arrebatava totalmente (2020, p. 52), assim, o bispo, em sua juventude, entrava em dor, confusão e erro ao procurar grandezas, prazeres e verdades nele mesmo e nos outros, criaturas de Deus, ao invés de o fazer no próprio Criador (2020, p. 35). O sentido de sua vida só apareceu mais tarde, quando se voltou completamente a Deus no jardim de Milão, revestindo-se de Jesus Cristo e não procurando satisfação na carne (2020, p. 176).
As inquietações de Agostinho são profundas e tomam uma forma consistente ao longo de sua vida: dúvidas existenciais, ambição, paixão, vaidade etc., porém, quando se entrega a Deus, o Senhor passa a ser a sua salvação e reconhece que ele nada é sem o Pai (2020, p. 178). Sendo assim, seus dias, seus problemas, tudo que passa não são nada perto da eternidade do Criador (2020, p. 291) e da vida eterna prometida pelo Cristo ao ressuscitar, a qual o Santo já conhecia desde a infância (2020, p. 25), todavia, só entendeu em sua conversão no jardim de Milão.
Minhas inquietações
Tal qual Agostinho de Hipona, eu também possuo inquietações, os conhecidos medos e as incertezas, mas, assim como ele, fui abençoada por Deus com pessoas ao meu redor. Em Confissões, ele escreve: “De quem eram, senão de Vós, aquelas palavras que, por meio de minha mãe, vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos?” (2020, p. 40). Agostinho, por meio de sua própria experiência de vida, me fez lembrar das presenças em meu entorno, usadas por Deus, para me sondar e alertar quanto ao pecar: meu pai e minha mãe, que deixaram claro que não eram perfeitos, contudo, me ensinam através do exemplo e da fala o correto e a iniquidade, além de me consolarem sempre.
No livro V de Confissões, Santo Agostinho narra seu grande sofrimento ao perder um grande amigo, como foi difícil assistir ao amigo adoecer e, após a sua morte, viver sem ele. Essa fração da obra me desperta um dos meus maiores medos, ter que chorar a perda de uma pessoa amada. Diferente de Agostinho, que “chorava muito amargamente e descansava na amargura” (2020, p. 71), eu evito viver o sofrimento relacionado a esse medo, a dor é imensa e não há nada que me console de fato. No entanto, há momentos em que ela vem à tona repentinamente.
Derivadas dessa inquietação, vêm muitas outras e vencer a luta sozinha contra elas é impossível. O bispo viu, na tristeza, a aproximação com Deus e comigo não foi diferente, só o Senhor pode me consolar, é só em oração com o Pai que me acalmo quando encaro a situação, é só n’Ele que vejo a esperança, pois reconheço que a misericórdia d’Ele na minha vida é constante, apesar de muitas vezes não entender. Agostinho afirma:
Se não chorarmos a vossos ouvidos, nada restará da nossa esperança. Donde provém o suave fruto que se colhe da amargura da vida, dos gemidos, dos prantos, dos suspiros, das queixas? Encontraremos aí doçura, pela esperança que temos de nos atenderdes? Na verdade, isto sucede na oração, porque esta encerra a ânsia de chegar até Vós (Agostinho, 2020, p. 71).
Sendo assim, somente Deus é capaz de dar sentido a todo sofrimento, tanto para Agostinho, quanto para mim, pois temos fé no propósito do Senhor: “mudais as obras, mas não mudais de resolução” (2020, p. 16); a vida vai acontecendo, tudo vai mudando, mas o plano do Senhor permanece inalterado, assim como diz em Hebreus 10:23, “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel”.
A ação de Deus em minha vida é tão comum que parece ser imperceptível, é preciso estar de olhos bem abertos para notar alguns de seus feitos, o que apenas é possível tendo consciência de Seu agir e fé em Sua obra. Essa falta de visão acerca do divino acomete muitas pessoas, mas, felizmente, Deus age mais uma vez e envia filhos Seus para transformar nossos corações endurecidos, como aconteceu comigo e com Agostinho.
Ambrósio foi enviado para Agostinho de Hipona, como a figura que o incentivaria a estudar e se converter ao cristianismo; suas habilidades concedidas por Deus encantavam Agostinho e o faziam refletir cada vez mais sobre Deus. Eu também tive uma figura semelhante em minha vida, uma professora que me acompanhou do quarto ano do ensino fundamental até atualmente e que ficará para a minha vida: a professora Elizete.
A professora Elizete foi aquela cuja influência sobre mim e minha admiração pelo seu caráter e suas habilidades me incentivaram a buscar mais as coisas de Deus, tal qual a situação de Ambrósio e Agostinho. Suas palavras inspiradas pelas escrituras me despertaram o interesse em fazer a minha primeira leitura bíblica, que se tornou um hábito importante na minha vida e um dos pilares do meu relacionamento com Deus.
Ambrósio e Elizete são pessoas usadas por Deus para alcançar outras, como Agostinho e eu, de tal maneira que Deus é o orquestrador de nossa conversão, usando instrumentos, como está escrito em 1 Coríntios 3:6-7, “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento”. Uma das atitudes mais nítidas de Deus em minha vida foi ele ter colocado a professora Elizete nela, que me orientou no início da minha jornada (e ainda orienta), criando uma célula dentro da escola para as meninas da minha sala e, mais tarde, outra para as meninas mais novas, que passariam a ficar sob nossa tutela também.
Deus me deu paz ao sinalizar a escolha certa em decisões difíceis da minha vida, me dá coragem para falar sobre Ele para as meninas mais novas e para aqueles que não O conhecem tão bem (apesar de nem eu entendê-Lo completamente), me capacitou de habilidades e dons, me deu um propósito (que é uma das minhas inquietações, pois não o descobri ainda) e me abençoou com muitas pessoas e ensinamentos, além de me dar forças para passar pelos momentos de medo; todas essas são ações de Deus em minha vida, pelas quais sou muito grata.
Entretanto, a maior e mais significante delas foi paga pelo Seu filho na cruz, Jesus Cristo, que morreu pelos nossos pecados e fez um ato ainda maior: venceu a morte, ao ressuscitar no terceiro dia. A ressurreição de Jesus representa toda a mudança de mundo que o Novo Testamento discorre acerca, seu significado central e mais profundo é o nascimento do ser humano como uma nova criatura, a possibilidade de morrer para o pecado e viver uma vida nova em Cristo, ressuscitar verdadeiramente, como diz em Filipenses 3:10, “para o conhecer (Cristo), e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte”.
Na Páscoa, o relembrar da ressurreição de Cristo leva à reflexão sobre como temos levado a vida até agora: estamos pecando ou agindo tal qual Jesus faria? Essa questão nos direciona ao arrependimento de nossos pecados, à melhoria de nossas atitudes, ao espelhamento em Jesus Cristo e ao aprofundamento de nossa relação com Deus. Para mim, também é um tempo de maior fortalecimento da fé.
Esse contato maior com Deus, que cria oportunidades para o fortalecimento da fé e do relacionamento com o Pai, é essencial para a minha vida, renovando minha mente e meu espírito, levando-me a voltar minhas metas e escolhas para Aquele cuja vontade é boa, perfeita e agradável, diferente das minhas vontades carnais e mundanas (Romanos 12:2). Dessa forma, esse momento é importante para mim, como cristã, para relembrar do que é realmente importante e de que Deus está sempre agindo em minha vida, me guiando apesar das minhas inquietações.
Esperança na ressurreição
Portanto, para a identidade cristã, inclusive a minha, a Páscoa é um momento de reflexão a respeito da ressurreição de Cristo, tendo em mente seu propósito na Terra. Essa reflexão se baseia em reconhecer nossos defeitos, admitir os nossos pecados e querer viver uma vida como nova criatura, que segue a Cristo.
Pensar na ressurreição é sinônimo de amor (ágape) para mim, fazendo-me lembrar de todo o processo do sacrifício de Jesus e de como ele nos ensinou a seguir o caminho certo, orientando-nos e, através da sua ressurreição, permitindo-nos renascer para o mundo, de forma que fiquemos cada vez mais parecidos com ele. Sua ressurreição é a derrota da morte, ele pavimentou o caminho para que pudéssemos ter a vida eterna com o Pai, nos levando a eternidade. Consoante ao pensamento de Agostinho, que disse:
Ele, a nossa vida, desceu até nós. Suportou a nossa morte e matou-a pela abundância da nossa vida. Com voz de trovão clamou que voltássemos para Ele, para o lugar escondido donde veio a nós, descendo primeiro ao seio da Virgem onde se desposou com Ele a natureza humana, a carne mortal, para não ficar eternamente mortal. E de lá, “como um esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante para percorrer o seu caminho”. Não se deteve, mas correu clamando com palavras, com obras, com a própria morte, com a vida, com a descida (ao Limbo), com a Ascensão, clamando sempre que a Ele voltássemos. Fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e aí O encontremos. Sim, separou-se de nós, com relutância, mas ei-Lo aqui. Não quis estar conosco muito tempo, mas não nos abandonou. Arrancou-se donde nunca se retirou, porque “o mundo foi por Ele criado”, e “estava neste mundo e veio a este mundo salvar os pecadores” (Agostinho, 2020, p. 78).
Assim, minha identidade cristã, na Páscoa, é vivida comemorando essa ação de Deus em minha vida, a maior de todas elas, e renovando minha fé e comprometimento para com o Salvador. Acima de tudo, lendo a Bíblia, orando, pensando e agradecendo pela Graça Divina, que deu a uma pecadora como eu um relacionamento íntimo com o Pai e a possibilidade de reforma espiritual, como está escrito em 1 Pedro 1:3, “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”.
REFERÊNCIAS
DE HIPONA, Agostinho. Confissões. Montecristo Editora, 2020. Edição Bilíngue: Português – Latim.
DE ALMEIDA, João Ferreira. BÍBLIA SAGRADA. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
SÉRGIO, Frei Mário. A inquietude em Santo Agostinho. Osabrasil.org, 2023. Disponível em: https://www.osabrasil.org/noticia/post/a-inquietude-em-santo-agostinho/. Acesso em: 09/04/2025.